O anúncio recente dos pedidos de recuperação judicial da Casas Bahia e da Marabraz bagunçou o tabuleiro de quem vende para essas grandes redes. Se a sua empresa fornece mercadorias para o varejo de massa, essa notícia bate direto na porta do seu escritório e ameaça o dinheiro que você esperava receber nos próximos meses. Não é um problema distante que só diz respeito aos acionistas da bolsa de valores.
Na prática, isso significa que faturas já emitidas com prazos longos de pagamento podem simplesmente congelar por tempo indeterminado, travando o dinheiro que girava o seu negócio. As empresas mais atingidas por esse baque são aquelas que operam no Lucro Presumido e no Lucro Real, estruturas que costumam sustentar operações de fornecimento em maior escala para grandes redes e que agora precisam lidar com o rombo repentino no capital de giro.
Empresas no Simples Nacional e o MEI, embora menos frequentes na ponta do fornecimento pesado de grandes redes, também sentem o reflexo caso prestem serviços pontuais ou vendam como pequenos subfornecedores para essas mesmas marcas. O estrago afeta toda a cadeia de suprimentos, exigindo uma faxina rápida nos contratos e nos números para evitar que a falência alheia puxe a sua empresa para o buraco junto.
O efeito dominó nas contas a receber
Quando uma gigante do comércio para de pagar, o impacto desce a ladeira em velocidade máxima. Você entrega o produto, emite a nota fiscal, paga os impostos sobre aquela venda que aconteceu no papel e fica esperando o prazo de noventa ou cento e vinte dias para o dinheiro cair na conta. Só que a proteção judicial obtida pelo cliente suspende as cobranças e o pagamento das dívidas antigas, deixando o fornecedor sem o produto no estoque e sem o dinheiro no banco.

O problema é que o imposto federal e estadual sobre aquela venda não espera a recuperação judicial ser resolvida. No Lucro Presumido, por exemplo, você recolhe tributos sobre uma margem de lucro que o governo acha que você teve, mesmo que o cliente nunca tenha pago a fatura original. É o pior dos mundos: entregar mercadoria de graça, continuar devendo imposto sobre ela e ainda ver o caixa minguar de uma hora para a outra.
O perigo invisível do imposto sobre venda não paga
Manter o faturamento ativo com grandes redes exige uma blindagem que muitos empresários ignoram até ser tarde demais. Se você emite notas fiscais volumosas e o cliente trava os pagamentos, o buraco contábil cresce depressa. No Lucro Real, a situação ganha contornos específicos porque a apuração depende do resultado efetivo, mas a burocracia para conseguir abater uma perda com inadimplência no balanço exige documentação rigorosa e tempo que o caixa geralmente não tem.
Muitas empresas continuam vendendo para a mesma rede nos dias seguintes ao pedido de recuperação, achando que a marca é grande demais para quebrar de vez. Essa aposta costuma ser fatal. O fornecedor acaba acumulando um prejuízo duplo: o calote do passado recente misturado com novas entregas que dificilmente serão quitadas no prazo combinado, esticando a corda até ela arrebentar de vez na tesouraria.

Passo a passo para auditar recebíveis e recalcular o risco
Mapeie todos os títulos e faturas pendentes vinculados a redes em situação de instabilidade ou recuperação judicial declarada.
Calcule o impacto exato que a perda desses valores causa no seu fluxo de caixa para os próximos noventa dias.
Suspenda imediatamente novas remessas de mercadorias para clientes com processos de recuperação em andamento, salvo mediante pagamento à vista.
Revise com seu departamento jurídico os contratos vigentes para identificar cláusulas de garantia, retenção de estoque e garantias reais.
Ajuste as provisões contábeis no Lucro Presumido e no Lucro Real para refletir a inadimplência real e evitar surpresas com o pagamento de tributos sobre faturamento fictício.
Negocie acordos de recuperação extrajudicial diretamente com os administradores judiciais nomeados para tentar resgatar parte do principal com deságio controlado.

