A projeção recente divulgada pelo Rabobank indica que o consumo de fertilizantes no Brasil deve cair para 45,1 milhões de toneladas em 2026. Essa retração na compra de insumos atinge diretamente a gestão de caixa de empresas do agronegócio de todos os portes, desde produtores individuais até operações estruturadas que operam no Lucro Real ou no Lucro Presumido.
Para quem opera no campo ou fornece para o setor, a menor circulação de dinheiro afeta diretamente o pagamento de fornecedores, a emissão de notas fiscais e o cumprimento de obrigações tributárias federais e estaduais. Quem está no Simples Nacional prestando serviços agrícolas ou o produtor rural enquadrado como pessoa jurídica sentem o impacto na ponta, pois a falta de liquidez no mercado trava o recebimento de safras passadas e a contratação de novos ciclos.
O ajuste financeiro que se desenha não é um problema passageiro de uma semana. O Rabobank estima que o ciclo de aperto no caixa dos produtores dure mais um ano e meio, exigindo uma revisão profunda nos custos operacionais e na forma como cada negócio lida com suas dívidas e estoques.
O tamanho da queda no consumo e a pressão sobre os custos
O mercado de insumos agrícolas vive uma virada brusca em comparação com o período anterior. Em 2025, as entregas de fertilizantes atingiram o recorde de 49,1 milhões de toneladas. A estimativa atual para 2026 marca uma descompressão forte, sendo que a própria projeção de consumo havia caído de 47 milhões de toneladas em abril.
Esse recomeço forçado mexe com o planejamento financeiro de quem comprou maquinário caro ou assumiu compromissos bancários apostando em um volume de vendas que não vai se concretizar. No Lucro Real, onde a apuração de tributos depende rigorosamente da compensação de custos e despesas efetivas, a oscilação violenta na margem exige acompanhamento mensal para evitar surpresas no fechamento do trimestre.

Como a acessibilidade dos insumos balança o mercado interno
Comprar adubo ficou mais difícil e caro em momentos cruciais do planejamento agrícola. O indicador de acessibilidade de fertilizantes no Brasil caiu de 0,05 em janeiro para -0,14 em abril de 2026, mostrando que o preço do insumo subiu muito em relação ao valor que o produtor recebe pelo que planta.
Entre os nitrogenados, a situação foi ainda mais aguda: a acessibilidade passou de 0,22 para -0,25 entre janeiro e abril de 2026. Apenas em julho de 2026 é que a acessibilidade da ureia recuperou-se para 0,19, dando um pequeno respiro para quem precisava repor o nutriente no solo.
Essas variações bagunçam o cálculo do capital de giro. Empresas agrícolas que não ajustam os preços de seus produtos ou não cortam gorduras operacionais veem o lucro evaporar, gerando um passivo perigoso com bancos e tradings.
O comportamento das importações e o reflexo na cadeia global
O freio puxado pelo produtor brasileiro reverbera diretamente nas importações que sustentam a lavoura. No primeiro semestre de 2026, as importações brasileiras de MAP caíram 24%. Em contrapartida, as importações brasileiras de TSP cresceram cerca de 40% no mesmo período.
Quando se olha o agregado, a queda dos fosfatados considerando o conteúdo de P₂O₅ foi de aproximadamente 8% no primeiro semestre. As importações de ureia recuaram 31%, enquanto as de potássio subiram 6%, mostrando que o comportamento de compra varia muito conforme o tipo de nutriente e a urgência da lavoura.
No cenário internacional, o movimento é de baixa generalizada. O Rabobank projeta queda de 7% na demanda global de fosfatados em 2026 e de 5% em 2027, enquanto a demanda global por ureia deve cair 5% em 2026, com a China projetada para liberar entre 2 milhões e 2,5 milhões de toneladas de ureia em uma segunda rodada de cotas de exportação.

Tabela de acompanhamento de variação de custos de insumos e planejamento de fluxo de caixa
Para proteger o caixa da sua empresa agrícola contra a volatilidade dos insumos, monte e atualize quinzenalmente uma tabela de controle com os seguintes passos operacionais:
Mapeie todos os insumos adquiridos nos últimos 12 meses, separando o preço unitário pago em cada compra do frete e dos encargos financeiros embutidos.
Insira na tabela o volume projetado de consumo para os próximos seis meses com base na área efetivamente plantada, cortando qualquer excesso de estoque que imobilize dinheiro.
Monitore a variação mensal dos preços de referência internacionais e nacionais para os principais compostos utilizados na sua lavoura.
Simule o impacto de uma alta de 10% nos custos operacionais sobre o seu capital de giro líquido, identificando exatamente em qual mês o caixa ficaria negativo.
Reavalie o cronograma de pagamento de financiamentos agrícolas junto às instituições financeiras antes que o vencimento coincida com a baixa sazonal de recebimentos.

