O pedido de recuperação judicial protocolado pela rede de móveis Marabraz na 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo para renegociar cerca de R$ 140 milhões em dívidas assusta muita gente que olha de fora. Mas essa movimentação jurídica atinge em cheio as empresas de médio e grande porte, especialmente aquelas estruturadas no Lucro Presumido ou no Lucro Real, que muitas vezes enxergam o endividamento como o fim da linha.
Para o caixa da empresa e para a operação do dia a dia, essa manobra legal muda completamente o cenário prático das cobranças e dos juros acumulados. As companhias enquadradas no Lucro Presumido e no Lucro Real sentem o impacto desse fôlego financeiro porque a lei suspende as execuções contra o negócio, permitindo que o dinheiro gerado nas vendas volte a pagar fornecedores e funcionários, em vez de sumir em penhoras judiciais.
Vale destacar que as empresas do Simples Nacional e os negócios tocados por um MEI operam sob outras regras de falência e recuperação, mas para os médios e grandes do Lucro Presumido e do Lucro Real, o processo funciona como uma chave de ignição para estancar o sangramento do caixa sem fechar as portas.
O mito do fim das atividades e o verdadeiro papel do processo
Existe um pavor generalizado de que pedir socorro judicial signifique o fim imediato da marca e a demissão em massa de todo mundo. Na prática, a ferramenta serve exatamente para o oposto: manter a operação viva, preservar postos de trabalho e garantir que os credores tenham alguma chance real de receber o que lhes é devido ao longo do tempo.
Quando uma empresa de médio ou grande porte chega a um patamar de endividamento insuportável no Lucro Real, a gestão do caixa trava. Os juros bancários e os impostos atrasados consomem qualquer centavo que entra, tornando impossível comprar matéria-prima ou pagar a folha de pagamento no fim do mês.
A proteção judicial congela o passivo por um período determinado, permitindo que a diretoria respire e sente à mesa com os credores para desenhar um plano de pagamento realista. Quem está no Lucro Presumido descobre rapidamente que negociar com os pés no chão é bem melhor do que fingir que a dívida vai sumir sozinha.

O impacto direto no caixa e na relação com os fornecedores
O alívio imediato após o protocolo do pedido é a suspensão de todas as ações de cobrança e execuções fiscais ou cíveis que sufocam a empresa. Isso significa que o dinheiro que entraria no caixa para cobrir uma penhora repentina agora pode ser usado para comprar insumos e manter a engrenagem girando.
No entanto, manter os fornecedores tradicionais abastecendo o estoque exige transparência total sobre a nova fase da companhia. Empresas do Lucro Real e do Lucro Presumido precisam negociar novas condições de pagamento à vista ou com garantias firmes para reconquistar a confiança do mercado.
Nenhum fornecedor quer vender para uma estrutura que continua a sangrar sem controle, por isso o plano apresentado em juízo precisa demonstrar exatamente de onde virá o dinheiro para honrar os novos compromissos assumidos após o início do processo.

Passo a passo para organizar a contabilidade antes do pedido
Entrar com o pedido de recuperação judicial exige uma preparação contábil rigorosa que vai muito além de juntar pilhas de notas fiscais antigas. A justiça e os credores exigem uma radiografia completa, transparente e auditável da saúde financeira do negócio.
Mapeie todas as dívidas ativas e passivas da empresa, separando empréstimos bancários, débitos tributários e obrigações trabalhistas.
Audite o balanço patrimonial e a demonstração de resultado para garantir que os números refletem fielmente a realidade do caixa nos últimos anos de operação no Lucro Real ou Lucro Presumido.
Elabore um fluxo de caixa projetado para os próximos doze meses, detalhando de forma realista as entradas de receita e as saídas essenciais para a continuidade da atividade.
Reúna os extratos bancários de todas as contas da empresa para comprovar a movimentação financeira e a real situação de insolvência temporária.
Contrate uma assessoria jurídica especializada em reestruturação corporativa para alinhar a estratégia contábil com as exigências da vara especializada.
Apresente o plano de recuperação detalhado com prazos, deságios e formas de pagamento que convençam a assembleia de credores da viabilidade do negócio.

