O g1 publicou uma calculadora que compara o preço final de uma compra internacional nos dois cenários: com o imposto de importação de 20% e sem ele. A ferramenta foi feita para o consumidor, mas serve melhor a quem tem loja: é a forma mais rápida de ver a que preço o produto do concorrente asiático chega ao mesmo CEP que o seu.
Num pedido de US$ 50, o imposto federal levava o valor para US$ 60. Com o ICMS de 17% de São Paulo, o produto terminava em US$ 72,29, cerca de R$ 374 pela cotação de 31 de agosto. Sem o imposto de importação, a mesma mercadoria entra por volta de R$ 312. O piso de preço do mercado caiu uns R$ 62 num item de ticket baixo, sem que ninguém do lado de cá tenha melhorado a operação.
O que exatamente acabou
Acabou o imposto federal. O ICMS estadual continua incidindo sobre toda remessa internacional, com alíquota de 17% na maior parte do país e 20% em dez estados.

E ele é cobrado por dentro. O próprio imposto integra a base de cálculo, então não se multiplica o preço por 1,17; divide-se por 0,83. É por isso que US$ 60 viram US$ 72,29 e não US$ 70,20. Quem monta comparativo de preço com a conta errada subestima o custo do importado, chega à conclusão de que ainda está competitivo e descobre o contrário no fechamento do mês.
O Congresso mudou o cenário em 3 de setembro
A isenção vinha da MP 1.357/2026, publicada em 12 de maio, e caducava em 8 de setembro. Se o Congresso não votasse, os 20% voltavam sozinhos. Votou: depois da Câmara, o Senado aprovou o texto na quinta-feira (3), e a matéria seguiu para sanção presidencial.
A parte que interessa mais à sua empresa não é essa. Junto veio a redução da alíquota de 60% para 30% nas remessas postais de até US$ 3 mil. Essa faixa é a que abastece pequeno importador, comprador de peça de reposição, insumo em volume baixo, equipamento avulso. O custo de importar direto caiu pela metade e quase ninguém comentou.
O texto ainda traz alíquota zero para medicamentos sem similar nacional, novas obrigações para as plataformas e avaliações periódicas da Fazenda sobre efeitos em emprego, renda, preços e indústria — a primeira em três meses, depois a cada seis. Essas avaliações são o gancho para uma eventual reversão, e vale acompanhá-las.
O tamanho do impacto
Entre janeiro e abril de 2026 a Receita arrecadou R$ 1,78 bilhão de imposto de importação sobre encomendas internacionais, 25% a mais que no mesmo período de 2025. A cobrança movimentava dinheiro de verdade.

A CNI estima que o fim da taxa põe em risco 109 mil empregos e cerca de R$ 21,8 bilhões em produção doméstica neste ano. É número de quem defende a taxação, mas o mecanismo é real: o varejista brasileiro paga ICMS, folha, encargos e frete interno para disputar com um pacote que agora entra pagando só o tributo estadual.
Se você vende moda, acessório, eletrônico pequeno ou utilidade doméstica, seu concorrente ficou cerca de 17% mais barato por decisão de Brasília. Reclamar da regra não muda margem. Refazer a precificação com o novo piso de mercado, sim; e para muitos negócios a resposta vai ser sair da disputa por preço no item genérico e concentrar giro no que a plataforma estrangeira não entrega: prazo curto, troca, garantia, atendimento.
Em 2027 a conta muda de novo
A reforma tributária institui a CBS, que substitui PIS e Cofins e passa a incidir sobre compras internacionais de qualquer valor. O que foi zerado agora é o imposto de importação, não a tributação inteira.
Quem estiver projetando 2027 com a régua de hoje vai errar dos dois lados. O importador que dimensionou volume em cima da alíquota de 30% precisa somar a CBS na ponta. E o varejista nacional que hoje se sente atropelado pode ver parte da diferença voltar.
A pergunta que a calculadora responde é a do consumidor: quanto eu pago. A que a sua empresa precisa responder é qual o preço do concorrente importado depois de todos os tributos, e se a sua margem sobrevive a ele.

